CHARME EM ZONA DE GUERRA DA MARÉ - QUARTZOLIT – 20/07/2015

Em um Segundo Evento do “Charme em Zona de Guerra da Maré”, realizado no dia 20/06/15, na Rua: Capitão Carlos 260, em comemoração ao Cozido da Baiana. Os Djs, Rony, Leley e Manuel, com apoio do Mago, Fundador do Bloco Carnavalesco a Magia do Samba, tocaram músicas de sucesso do Charme internacional, brasileiro, além de musicas de “black  music  e flashback”. Foram varias seqüências musicais tocada na rua, ao lado do QG do Exercito, que hoje ocupa o Prédio da Quartzolit, no mesmo endereço no n. 260. 

Mesmo sem autorização para a realização do som, as musicas foram tocadas para a alegria da galera. Em certo momento da apresentação do Charme que dispensava convidados. Um tenente se aproximou e questionou o som alto e possível aglomeração, o que poderia prejudicar o trabalho da guarnição. “Já tivemos incidente com eventos realizados na rua e não queremos que isso aconteça aqui. Além do som que esta bastante alta prejudicando nossa comunicação”, discorreu.

Prontamente os DJs e o Mago, da Oficina, resolveram baixar o som e informar ao militar que não se tratava de festa publica, mas familiar e que não haveria aglomeração, e que a solicitação de baixar o som seria prontamente atendida. “Fique tranqüilo disse o Mago, se houver depredação e baderna. Pode levar- me preso junto com os equipamentos”, brincou. O som e o Cozido da Baiana, “Ia de Vento em Popa”, em meio ao desfile de tropas, e o cozido da Baiana. Lá pelas 22: h00, o som foi perdendo a sonoridade em respeito à Lei do Silêncio e a Panela vazia do Cozido da Baiana. “Comeram tudo, não sobrou nada”, disse um retardatário.

Os articulistas da festa ficaram satisfeitos com o segundo evento, realizado em “Zona de Guerra”. E já falavam na realização de um próximo evento em comemoração aos festejos da festa Junina. Os Convidados da Baiana estampavam sorrisos no rosto e faziam cobranças? “Quando é o próximo, não se esqueçam de me convidar. Dancei até na rua”, filosofou um participante da velha guarda chamado Jorge. O evento feito de improviso sem articulação previa, permitiu discurso ao vivo sobre analise de conjuntura política do momento atual. Uma das falas de Reinaldo Cunha abordou o momento complexo que vive os moradores da Maré, em momento de guerra. “A luta que se trava aqui é uma ocupação de território.

No primeiro momento   o Exercito Brasileiro demarcou e ocupou território.  Em segundo momento vem a policia fazendo “varredura”.  E por ultimo, as administrações de instância municipal e estadual. Já visualizamos  a presença da Comlurb na coleta do Lixo, e outros ações capitaneadas pelo exercito na retirada de documentos, corte de cabelo, separação, divórcio, alistamento militar e outros serviços. Mas  porque o interesse na prestação de serviço a comunidade pelo exercito? Teria o mesmo objetivo da aproximação com a comunidade? O exercito não é visto como um executor de políticas públicas, então porque distribuir panfletos para trazer melhorias conceituais para a Maré. E depois da saída do exercito quem ocupará o vácuo de deixado?

Segundo Aristóteles, o homem é um animal  gregário e que vive em sociedade. Na Maré residem mais de 140 mil pessoas. “Isso faz com que a sociedade preceda o indivíduo, logo é natural para nós o convívio com a sociedade, fazendo com que aqueles que não se encaixam ao convívio em comunidade serem considerados pelo filósofo como um "bruto" ou como um "deus", comparações extremas e em dois pontos distintos da condição do ser humano, no qual como um "bruto" se colocaria como os animais selvagens assim como um "deus" se colocaria como algo superior aos demais meros mortais”.

A Maré não esta dissociada da cidade e as ações políticas de governo. Aliás, ela esta em um ponto estratégico no Rio, onde margeia a Av. Brasil, Linha e Vermelha que dar acesso ao Aeroporto Internacional. Em 2016 o Rio estará realizando os Jogos Olímpicos, o que implica em gastos com segurança. Compreender a isso faz entender melhor a segunda afirmação do homem ser um animal político, que é a de que ele está " destinado a viver em sociedade". Logo, " o homem é um animal político, destinado a viver em sociedade". Muita gente duvida da eficácia do governo em suas ações pontuais na Maré. A cada Eleição o governo promete mais segurança para a cidade. A Maré não esta longe de da política que se apresenta em tempos em tempos.

Ontem eleições para governo e amanha para a prefeitura. O tema segurança tem grande apelo eleitoral. Como vimos: as ocupações nas favelas por forças policiais, obedecem a um calendário eleitoral e as UPPs, se transformaram em carros chefes de Marketing  Institucional. Todo Estado originou-se a partir da guerra e suas instituições políticas e jurídicas atuam como mantenedoras da conquista originária. A paz instituída pela sociedade é, na realidade, a paz do vencedor. “A guerra permanece em cada ato político, sendo a política a continuação da guerra por outros meios”, como afirmou Carl Von Clausewtz.

Por meio dessa análise, podemos situar-nos nessa guerra que permanece e que nos atinge, bem como, podemos compreender melhor os desdobramentos do discurso de guerra que se apresentaram no nazismo, no comunismo e no biopoder. Segundo Marcus Vinicius, em seu Livro a Soberania e a Guerra: “Foi a guerra que presidiu ao nascimento dos Estados: mas não a guerra ideal – a imaginada pelos filósofos do estado natural – mas guerras reais e batalhas efetivas. As leis nasceram em meio a expedições, a conquistas e a cidades incendiadas; mas a guerra continua também a causar estragos no interior dos mecanismos do poder, ou pelo menos as constituir o motor secreto das instituições, das leis e da ordem”.

Nesse sentido, podemos afirmar que a Maré vive em estado de guerra. “E é só através da guerra que a biopolítica surge como desenvolvimento da soberania, mas um desenvolvimento que abandona a soberania: “A velha potência da morte em que se simbolizava o poder soberano é agora, cuidadosamente, recoberta pela administração dos corpos e pela gestão da vida”.  “O discurso histórico-político é desse modo, aquele que precisa ser lembrado, estudado, reativado, para se entender melhor as relações políticas contemporâneas. O nazismo, o socialismo, a biopolítica originam-se das disputas travadas entre os discursos filosófico-jurídico e histórico-político. A vitória do primeiro escondeu o próprio fato de ter existido essa batalha discursiva, escondeu a guerra que permaneceu no interior da sociedade e camuflou as lutas de raça, grupos e classes que continuam acontecendo como algo relativo meramente do âmbito da soberania. “É preciso defender a sociedade, é preciso retomar o discurso da guerra para sabermos em que perspectiva, em que lugar estamos na guerra que é a sociedade instituída”.

Marcus Vinicius sustenta: “Desse modo, nas análises empreendidas no curso  Em defesa da sociedade, Foucault abandona o discurso da soberania em favor de uma abordagem do poder e de suas relações que parta do  fato da dominação. Essa abordagem, que privilegia a dominação, seria o caminho do discurso de guerra, pois seria esse discurso que fala a realidade da constituição real do Estado e de suas relações de poder. Junto com essa análise do discurso de guerra, há também a necessidade de se considerar os mecanismos de poder que estão funcionando por baixo do edifício jurídico da soberania, e que constituem múltiplos sujeitos de múltiplas relações de poder. Esses mecanismos são chamados, por ele, de poder disciplinar”.

Pierre de Clastes argumenta que as comunidades primitivas são sociedades contra o estado e sem estado. Não podemos dizer que a Maré não tem o estado presente, já que dispõe de serviços de saúde, escolas, coleta de lixo e até uma prefeitura local. Mas, embora dispondo de serviços considerados por muitos precários, a sensação da cidade é que o estado abandonou as favelas deixando outro poder se instalar. “Todos os povos policiados foram selvagens”, escreve Raynal.

Por conseguinte: “se as sociedades primitivas repousam numa economia de subsistência, não é por lhes faltar uma habilidade técnica. A verdadeira pergunta que se deve formular é a seguinte: a economia dessas sociedades é realmente uma economia de subsistência? Precisando o sentido das expressões: se por economia de subsistência não nos contentamos em entender economia sem mercado e sem excedentes - o que seria um simples truísmo, o puro registro da diferença - então com efeito se afirma que esse tipo de economia permite à sociedade que ele funda tão somente subsistir; afirma-se que essa sociedade mobiliza permanentemente a totalidade de suas forças produtivas para fornecer a seus membros o mínimo necessário à subsistência”.

Por fim: a Maré esta em transição de sua ocupação pelo exercito que termina agora no dia 30 de Junho, dando lugar a outra política institucional. Saber como será essa política é que são elas. Percebe-se uma forte desconfiança dos moradores das ações do governo e nos políticos. Comenta-se que em áreas já ocupada na Maré pela policia, esta na margem da Avenida Brasil que é um alivio para os moradores. “Já pensou eles aqui todos os dias em confronto com o poder paralelo”, confidenciou um morador que não quis se identificar. A propósito, a Rede Globo de Televisão da Maré esteve na Quartzolit n.260, afirmando que a Maré é muito perigosa. “É uma área muito complexa, com muitos grupos armados, com milícia em conflitos e confrontos. Então é uma área que realmente é um desafio para a segurança”, afirma o sociólogo da UERJ Ignácio Cano.

Sem entrevistar nenhum morador, dando a versão oficial do exercito sintetiza a matéria: “Depois de subir seis andares, no topo do prédio é possível ter uma visão de 360º da Maré. E lá que se entende a importância desse lugar para o tráfico, e também porque a ocupação desse espaço pelo Exército é tão emblemática. Agora, quem observa todo o movimento da Maré é a Força de Pacificação. “Além da observação que é feita pela tropa que ocupa o terraço do prédio 24 horas, nós temos uma câmera que nos permite gravar imagens em tempo real e transmiti-las para nosso centro de operações e que nos permitiu inibir essa ação dos traficantes”, diz o tenente-coronel Castro.

E concluiu, fecha  a matéria  dizendo:  “O desafio é primeiro conter a violência e os tiroteios. E em segundo lugar, construir uma relação de respeito e confiança progressiva entre a comunidade e as forças de segurança”. O desafio da boa convivência com os moradores, sem o olhar da discriminação é que apostam os moradores. “A cultura esta na nossa mente e nos liberta” disse o DJ, do Charme na Zona de Guerra, “Sala de Estado, 260, TIMBAU,  Complexo da Maré.

Reportagem e Fotografia: Reinaldo de Jesus Cunha

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